terça-feira, 24 de maio de 2011

O Erro Construtivista e sua Relação com a Afetividade no Processo de Aprendizagem

Na teoria construtivista, o erro não deve ser considerado como o oposto do certo, que é valorizado como verdadeiro ou bom, tampouco deve ser tratado com complacência ou rigor. O problema na ótica do construtivismo é a invenção e a descoberta, nos quais erros e acertos são inevitáveis e fazem parte do processo chamado de auto-regulação. Conforme Macedo (1994) descreve, “a auto-regulação, significa busca de sintonia – há algo no processo que precisa ser corrigido. É o que Piaget chama de feedback positivo e negativo. O feedback positivo corresponde ao que pode ser mantido, pois é bom para o resultado pretendido. O limite entre o favorável e o desfavorável ao que se quer alcançar é construído por meio de auto regulação, na qual erro e acerto não são pré-determinados. Eles são parte intrínseca do processo”. O processo dinâmico de construção do conhecimento com base no erro é, segundo Piaget, uma etapa necessária no desenvolvimento cognitivo. Segundo Ruthscilling et. al (1998) “é imprescindível que se compreenda que sem uma atitude no objeto que perturbe as estruturas do sujeito, este não tentará acomodar-se à situação, criando uma futura assimilação do objeto, dando origem às sucessivas adaptações do sujeito ao meio, com constante desenvolvimento de seu cognitivismo”.

Um dos grandes desafios da pedagogia construtivista é fazer com que o aluno entenda o processo de aprendizagem e o papel do erro na construção do conhecimento. Em geral, o erro ocasiona um efeito negativo no aspecto afetivo do aprendiz. O estudante quando não consegue alcançar um resultado esperado sente-se frustrado. Há uma tendência de o indivíduo sentir-se com baixa auto-estima e com um sentimento de incapacidade em alcançar o conhecimento desejado. Muitas vezes estes sentimentos levam o aluno a desistir da busca do saber.

A importância da afetividade no processo de aprendizagem é tema que já vem sendo estudado e discutido há muito tempo no campo da pedagogia e psicologia. Os aspectos emocionais como raiva ou depressão impedem que estudantes absorvam informação eficientemente (Goleman, 2001). Dentro desta perspectiva, a questão do erro construtivista proposto por Piaget deve ser compreendida tanto pelo professor quanto pelo aluno.

Professores experientes buscam perceber de forma individualizada os estados emocionais dos alunos e a partir desta observação tomar alguma atitude que possibilite impactar positivamente no aprendizado. Conforme Kort e Reilly (2006), estudantes que possam ter se desviado do caminho do conhecimento por alguma razão afetiva podem retornar à linha produtiva como efeito de intervenções dos professores.

É possível perceber o estado emocional-afetivo de um indíviduo com bastante confiabilidade por intermédio da observação do seu comportamento não-verbal. Expressões faciais, linguagem corporal ou tonalidade da voz são algumas características que podem ser percebidas para que se avalie emoções em uma pessoa. Portella (2006) afirma que “o comportamento não-verbal não apenas ajusta-se à expressão lingüística, como também permite e favorece a expressão de intenções e emoções”.

A Figura 1 apresenta cinco possibilidades de eixos de emoções que podem surgir ao longo do processo de aprendizagem (Kort, Reilly e Picard, 2006).



FIGURA 1 – Conjunto de Emoções Relevantes no Aprendizado

Ao longo da construção e desenvolvimento das teorias científicas, pesquisadores passam por diversas situações de erros e equívocos, gerando estados emocionais de confusão e dúvida. A partir destes momentos de frustração, os conceitos errados são desconstruídos, as frustrações são superadas e há um recomeço pela busca de novos caminhos com esperança e entusiasmo. O erro deve ser compreendido como parte do processo de aprendizagem e deve ser analisado criteriosamente para que o aprendiz perceba qual o novo caminho que o levará ao conhecimento. Uma grande questão educacional é que quando os professores apresentam uma teoria na sala de aula, este aspecto relacionado à construção do conhecimento quase sempre é omitido dos alunos.

A Figura 2 apresenta um diagrama com as dinâmicas cognitivas do processo de aprendizagem. O eixo horizontal corresponde a um ou a um conjunto de eixos de emoções apresentados na Figura 1. O eixo vertical é o eixo do aprendizado que representa a construção do conhecimento na parte superior e o descarte de conceitos erroneos na parte inferior.

 FIGURA 2 – Espaço Emotivo-Cognitivo

A construção do conhecimento ocorre através do conjuto de emoções presentes nos quatro quadrantes no espaço emotivo-cognitivo em um ciclo contínuo (I-II-III-IV) produzindo uma espiral crescente de conhecimento.

Fonte:

MACHADO, Francis Berenger; MIRANDA Luciana Lima. O uso do Construtivismo e da Afetividade nas Metodologias de Ensino à Distância. Departamento de Psicologia da Universidade Católica do Rio de Janeiro. 2006 - (Pg 10-13)